Escolas ocupadas pelos donos. Demorô!




"Até parece que a escola é de vocês!" Essa foi a infeliz exclamação de uma professora, questionando que os alunos da escola estadual Caetano de Campos queriam falar mais do que o diretor, os professores e funcionários presentes à reunião. "A escola é nooooossa!!!" Responderam os alunos em uníssono.

Música para os ouvidos de quem, como eu, teve três filhos estudando na rede pública nas duas últimas décadas e até hoje continua acompanhando o progressivo desmonte da rede pública - não apenas do Estado de São Paulo. Pela primeira vez na história deste país, alunos da rede pública, em sua maioria menores de idade, assumiram sua condição de sujeitos da escola!




Essa reunião foi realizada hoje de manhã na Praça Roosevelt, em frente ao colégio ocupado por alunos contrários ao famigerado projeto de "reorganização" e fechamento de escolas estaduais, do qual já muito falamos aqui, aqui e aqui.

Quem convocou a reunião foi o diretor da escola, que porém, se colocou de forma bem menos autoritária do que tenho visto nas escolas de bairro, onde há pouca visibilidade e os diretores costumam chamar a polícia para retirar da escola até aluno menor de idade, algemado. Acredite, se quiser!

De forma política, o diretor chamou os alunos de dentro da escola para participar da reunião, dizendo que "não trataria da ocupação", mas do encerramento do ano letivo. Diversos alunos saíram da escola para a reunião, que contava com diversos professores e funcionários da escola, uns 25 entre mães e pais e alguns "penetras" que desafiei a se identificarem, mas relutaram e provavelmente mentiram, dizendo-se "pesquisadores independentes", enquanto filmaram e fotografaram tudo, "para seus próprios arquivos". Um deles ficou o tempo todo ao lado do diretor, durante a reunião.


Esses "penetras" já estavam a postos antes da chegada do próprio diretor, tentando "esclarecer" aos presentes que o "tal" movimento de ocupação não era dos alunos, mas de "movimentos e partidos políticos contrários ao governo", que se valiam da ingenuidade e da ignorância dos alunos para criar baderna dentro das escolas...


O diretor iniciou a reunião declarando que a escola estava em recesso, que os professores e funcionários não receberiam vale transporte nem vale alimentação, e que a única preocupação dele era sobre quando o ano letivo estaria concluído, já que ele tem 220 dias e que isso deveria ocorrer teoricamente no dia 23/12.


Ele perguntou se todos estavam cientes de que precisaria ser montado um plano de reposição de aulas que avançaria pelo ano novo e pelo mês de janeiro... Em seguida, ele fez uma jogada esperta, perguntando se todos os alunos haviam sido consultados em assembleia sobre a realização e a continuidade da ocupação, sugerindo que isso poderia ser feito naquela hora...


Os alunos, no entanto, foram mais espertos do que ele e contestaram que também os presentes naquela reunião não representariam toda a comunidade escolar e que, por outro lado, nem os alunos nem as famílias haviam sido consultados sobre a "reorganização".

Com muita propriedade, eles colocaram que o ano letivo já havia sido seriamente prejudicados pela greve dos professores, que durou meses, e se o problema fosse a avaliação dos alunos, então que fosse feito uma espécie de "provão", que substituiria as tradicionais avaliações. O diretor respondeu que não cabia a ele decidir isso, que os alunos levassem essa proposta ao Governador. Eles argumentaram que ele próprio deveria fazer essa ponte, afinal, sua preocupação não era a de concluir o ano letivo?...


O diretor retrucou que seria impossível avaliar uma escola onde não havia aulas. Os alunos responderam que havia aulas, sim, aulas e atividades todos os dias! Aulas essas dadas por voluntários e muito melhor aceitas do que as da própria rede.

Um pai de alunos pediu a palavra e fez um discurso arrasador, dizendo que estava há uma semana fazendo vigília na porta da escola para proteger seus dois filhos, que estavam ocupando o que era deles. Disse também que historicamente a rede pública mantém os alunos à margem da sociedade, sofrendo a humilhação de estudar numa escola precária, sem acesso a laboratórios, onde ouvem diariamente que não terão futuro. E que resolveu apoiá-los pois estavam cobertos de razão ao contestar essa "reorganização" absurda. Que esse seria apenas o início de uma série de reivindicações, já que finalmente em todo o Estado, e até em outras regiões do país, alunos tinham conseguido se unir e lutar por seus direitos.

Esse pai concluiu sua fala de modo muito emocionado, dizendo que continuaria na porta da escola zelando pela segurança dos filhos e de todos os alunos acampados, que até não se importaria de perder o emprego, pois seus filhos vinham em primeiro lugar!


Quando foi minha vez de falar, reforcei o discurso dos alunos e desse pai, acrescentando que se a "reorganização" fosse resolver os problemas da educação paulista, isso já teria ocorrido na década de 90,  quando o governador Mario Covas fez exatamente a mesma coisa, separando alunos por escola, desestruturando famílias e praticamente toda a rede de ensino. Se isso não funcionou naquela época, por que funcionaria agora?...


Tem mais: o governador não disse que as escolas ficaram vazias "também" por que as pessoas têm menos filhos? Ora, Geraldinho, então explique por que o Colégio Móbile, em Moema, para a fina flor da sociedade, está ampliando sua sede em plena recessão, ainda por cima com financiamento do Governo do Estado??? Além disso, o Móbile abriga, num mesmo prédio, todos os níveis de ensino, desde a Educação Infantil até o Ensino Médio. Isso põe por terra todas as suas teorias, não é não???

Finalizando, argumentei que se por acaso esses jovens fossem perder um ano letivo, em compensação eles estariam retomando o bonde da história! E isso vale para todos os alunos de todas as ocupações, que estão dando uma lição de cidadania para todo o país, principalmente para seus pais, que deveriam estar ocupando todas as ruas, não apenas para apoiá-los nesta demanda de abortar a tal "reorganização", mas para cobrar uma educação decente para os filhos, prejudicados pela política de precarização que dura 20 anos.


Em seguida, sugeri aos alunos que voltassem para a ocupação e deixassem o diretor falando sozinho, ou melhor, com seus baba-ovo, pois havia um boato de que a Secretaria enviaria "reforços" para tumultuar a reunião. Foi o que eles fizeram.

Uma última sugestão, para todos os alunos de todas as escolas ocupadas: vocês são demais, demonstram que sabem o que querem e se expressam tão bem ou melhor do que adultos. Não se deixem tutelar por ninguém, vocês não precisam! Coloquem para fora das ocupações todos que falam mais alto do que vocês, até aqueles que estão de alguma forma ajudando, sejam da Apeoesp, das associações estudantis, de Ongs, professores etc. Quem quiser apoiar vocês, que fique do lado de fora e vigie o portão. Vocês são os protagonistas desta nova página da educação brasileira, sua voz tem que ser a mais forte, dentro das ocupações. Todo cuidado é pouco para com penetras e oportunistas! Se houver apenas alunos e pais dentro das escolas ocupadas, ninguém vai poder dizer que vocês estão sendo manipulados, pois essa é a fala do Geraldo e de todos os seus baba-ovo. Pensem nisso!

E o último trecho deste post é dedicado ao Tramontina, que hoje colocou um nariz de Pinóquio pior do que o do Geraldo!!! No SPTV da noite, ele declarou que houve tumulto na Caetano de Campos, e mostrou uma filmagem com as mesmas cenas das minhas fotos, ou seja, da reunião da qual participei, às 9:00 da manhã. Que tumulto foi esse que eu não percebi, hein, Tramontina??? Seu cinegrafista também ficou apavorado quando ouviu os alunos gritarem: "A escola é noooossa!"??? É bom que se prepare, rede Globo, daqui pra frente é assim que vai ser!

Comentários

Anônimo disse…
A questão que acho mais grave não é fechar ou não fechar, simplesmente. A questão é porque a escola vai fechar ? A resposta é que as escolas estão ociosas, então porque estão ociosas ao mesmo tempo que o Secretario admite ter perdido dois milhões de alunos nos últimos anos...Esses dois milhões de alunos que a escola expulsou estão por aí, nas valas comuns de cemitérios públicos, em sub empregos, na criminalidade operando a todo vapor e superlotando as cadeias ...Só impedir as escolas de fecharam não basta, tem que garantir uma escola onde o aluno não seja expulso, perseguido e que desista sob livre e expontãnea pressão. Os alunos tem que voltar para a escola. Só manter a escola vazia não é suficiente...
Cremilda estella teixeira
Anônimo disse…
Oi, sou professora de uma escola de ensino médio e até concordo com algumas orientações do blog!Mas convenhamos que muitas são absurdas...Antes de criticar e reivindicar preciso CONHECER também os meus DEVERES!!Você não acha?
Giulia disse…
É isso mesmo, professora anônima. Espero mesmo que você conheça seus deveres e que apoie seus alunos!
Priscilla Hercos disse…
Antes de se ter opnião deveria se ter uma identidade..

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